Por Luis Aureliano

O governo impôs barreiras ao livre comércio com a obrigatoriedade de licenças de sessenta dias para importar. O objetivo é conter o déficit da balança comercial. A decisão se choca frontalmente com o discurso do presidente e das autoridades econômicas. É ruim para a imagem do País, pode dar margem a retaliações externas por contrariar normas de comércio internacional, e protege desnecessariamente setores produtivos brasileiros pouco eficientes.

Mas isso nem é o pecado maior dessa iniciativa. O problema é que o governo parece sem radar. Age reativamente. Combate a crise com medidas pontuais, muitas vezes em resposta a pressões dos setores mais atingidos. Quem tem pouca capacidade de vocalização política ou pouco poder de barganha fica de fora. É o caso das pequenas e médias empresas, que respondem pela maior parte do emprego formal no País, mas que não foram beneficiadas até agora com nenhuma política governamental.

Falta estratégia e planejamento ao governo para combater a crise. Acordou tarde para a nova realidade da economia mundial, subestimou seu impacto sobre o Brasil e paga o preço de não contar em seus quadros com um formulador de política econômica.

Ficam o Banco Central de um lado e o Ministério da Fazenda de outro, agindo descoordenadamente. A política fiscal precisa ser sintonizada com a monetária. Só aos poucos é que o ministro do Planejamento vem decidindo cortar gastos.

O País carece de inversões públicas. O combate efetivo ao desemprego e ao desaquecimento da economia requer maciços investimentos governamentais.

O PAC só não é estímulo suficiente para garantir que o emprego e a renda despenquem. Mais inversões públicas são necessárias, mas, para que produzam os efeitos esperados em tempo de se contrapor à redução da produção, é imprescindível mobilizar Estados e municípios. Estes últimos são muito mais ágeis do que a máquina federal.

Apoiar empresas diretamente é recurso a utilizar apenas em determinadas circunstâncias, não como medida geral. Melhor faria o governo se, em lugar disso, facilitasse a flexibilização das leis trabalhistas que travam acordos e arranjos que podem evitar o mal maior: a perda total de renda.

O governo quer acertar. Admitiu tardiamente a crise, mas vem procurando se redimir. Só que carece de plano, estratégia e um piloto que saiba levar o País à terra firme.

É inadiável a criação de um mecanismo para coordenar os diferentes setores do governo no combate à crise. Investimentos públicos precisam ser direcionados para melhorar a infra-estrutura, o saneamento; incrementar a ciência e tecnologia e melhorar as políticas de proteção ambiental.

O presidente não pode continuar a dar atenção à crise promovendo reuniões com um ou dois ministros entre os buracos de sua agenda. Urge criar um gabinete de crise, responsável pela elaboração de um plano estratégico e pela coordenação das ações dos ministérios.

Sem isso, é como embarcar em vôo cego, sem radar, e o que pode ser pior, sem rumo definido.



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