Por Luis Aureliano

Contrariando expectativas otimistas, o sistema financeiro internacional continua sem uma luz no fim do túnel. À medida que se publicam balanços sobre o último trimestre ou do ano de 2008, novas perdas de bancos são reveladas, quase sempre acima das previsões dos analistas.

Em declarações recentes, Nouriel Roubini, que se notabilizou como o único economista que antecipou a catástrofe econômica que atingiu os Estados Unidos, afirmou que o sistema bancário norte-americano encontra-se praticamente quebrado.

Mas os problemas não ficam só em Wall Street. Sabia-se que cedo ou tarde a economia real seria abalada pela crise, mas não na extensão que vem se configurando. A indústria automobilística norte-americana, de pires na mão, depende hoje dos recursos do Tesouro americano para sobreviver.

Acreditava-se que a resistência da GM, Ford e Chrysler em investirem no desenvolvimento de automóveis econômicos, de menor porte e mais avançados tecnologicamente, somada à questão sindical que flagela essas empresas (a General Motors gasta mais com suas contribuições aos fundos de pensão de seus funcionários do que com a compra de aço para seus veículos) é que explicavam a vulnerabilidade delas à crise.

Mas o estrago na industria automotiva atravessou fronteiras e continentes e atingiu, por exemplo, a poderosa Toyota, hoje a maior montadora do planeta e que acaba de anunciar gigantesco prejuízo no último trimestre de 2008.

Setores industriais produtores de bens duráveis, inclusive os de alta tecnologia, estão com seus balanços no vermelho e as perspectivas não são alvissareiras para os próximos meses.

O pacote de medidas anticrise aprovado ainda na administração Bush é claramente insuficiente. Obama submeteu ao Congresso norte-americano outro conjunto de projetos para combater a recessão, no valor de US$ 800 bilhões, mas ainda não foi aprovado pelo Senado. Pior: mesmo que tudo se equacione politicamente, as novas ações só surtirão efeito daqui a um ano pelo menos.

Para agravar esse quadro, em diferentes países, apesar do discurso contrário ao protecionismo, barreiras têm sido levantadas contra o comércio livre, sob o argumento de que é preciso proteger empregos e empresas ameaçadas por importações.

Países fortemente dependentes do comércio exterior mostraram um baque em suas contas externas, como foi o caso da Coréia do Sul, que apresentou déficit nas transações com o resto do mundo.

O artigo de Obama, publicado no Washington Post e reproduzido pela imprensa brasileira, levanta o véu sobre a crise e prevê longo período de vacas magras.

Transparência, noção tão em voga nos meios políticos brasileiros, nunca foi tão necessária quanto agora. A capacidade de vencer a crise ou de abreviar sua duração dependerá em grande parte do apoio que os governantes receberem de seus governados, porque deles serão exigidos grandes sacrifícios.

O Planalto, o próprio presidente Lula e seus colaboradores mais diretos, principalmente a ministra Dilma, deveriam prestar atenção às questões ligadas à accountability e à transparência. Retórica vazia e desconectada da realidade, além de causar dano às crenças na democracia, na política e nos políticos, em nada contribui para superar os enormes obstáculos que confrontam o País e o mundo nos dias de hoje.



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