Por Luis Aureliano
Governar não se reduz apenas a atacar os problemas do aqui e agora. Sem visão clara e lúcida do que está por vir, tudo pode se tornar irremediável. O que poderia ter sido evitado transforma-se em obstáculo muitas vezes mais difÃcil de ser superado.
Crises podem ser enfrentadas com o olhar sobre o horizonte ou apenas vendo um ou dois passos à frente. O governo do presidente Lula, infelizmente, optou pela segunda alternativa. Ignora a possibilidade de retomar as reformas e completar o ciclo de modernização do Estado e da economia brasileira.
É verdade que a crise terá impacto significativo sobre o processo de globalização. Defensores do protecionismo ganharam força em muitos paÃses. Mas, ao fim e ao cabo, não há como reverter a globalização.
Novas regulações serão impostas sobre os mercados para evitar a débâcle financeira, porém a globalização não tem volta. Isto porque é a lógica do capitalismo. Foi assim desde que esse sistema se firmou primeiro na Inglaterra, depois nos paÃses centrais do continente europeu e nos Estados Unidos.
O governo do presidente Lula parece não ter compreendido esse fato. Não reverteu as mudanças empreendidas no PaÃs desde a abertura do comércio no governo Collor, a estabilização da economia na administração Itamar e nas reformas empreendidas nos oito anos de Fernando Henrique. Mas não avançou com esse processo.
Na realidade, o ciclo de modernização da economia foi interrompido nos seis anos da era Lula. A exceção foi a aprovação da contribuição dos aposentados do setor público. Mas, tirante essa medida, o Planalto não se empenhou em promover as mudanças estruturais de que a economia brasileira ainda carece.
A reforma tributária foi tentada duas vezes, mas, ao que tudo indica, não era projeto prioritário. A reforma das relações de trabalho sequer foi cogitada. E quanto à Previdência, o risco é de retrocesso, não de avanços.
O pior dano, contudo, foi o de ter tirado as reformas da agenda polÃtica do PaÃs. Mudanças estruturais esbarram em grandes dificuldades em toda a parte. Aqueles que podem perder no curto prazo tendem a bloqueá-las. Somente com um intenso trabalho junto à opinião pública se consegue remover esses obstáculos.
Mas o Planalto silenciou-se sobre as reformas. Tratou-as como se fizessem parte de receituário neoliberal que precisava ser esconjurado, e não como medidas imprescindÃveis para permitir que o PaÃs não perca o bonde da história.
A falta de sensibilidade para com o futuro manifesta-se também nas iniciativas propostas para lidar com a crise. O PAC, por exemplo, ignorou a questão do meio ambiente. Propôs, para aumentar a capacidade energética, a construção de termoelétricas movidas a diesel.
O corte de verbas da área de ciência e tecnologia é outra evidência dessa visão que não olha para frente, mas só para o chão. Sem ciência e tecnologia, o desenvolvimento fica limitado e capenga. Ficaremos condenados a ser uma economia produtora de bens primários.
A esperança é que tudo isso ainda pode ser mudado. Superar a queda do emprego e da produção é preciso, mas preparando o futuro. Essa deveria ser a diretriz maior do governo nesses tempos difÃceis de crise.
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