Por Luis Aureliano

A trajetória do capitalismo é marcada por crises. Não se trata de anomalia, mas de fenômeno que é parte essencial desse sistema. A mão invisível de que falava Adam Smith não é infalível. Nem a intervenção do Estado pode livrá-lo definitivamente desse desfecho.

Mudanças e inovações no sistema financeiro internacional com a criação de derivativos levaram à apocalipse dos dias de hoje. A saída não virá dos mercados, mas da ação do Estado. E só se logrará sucesso se e quando a crise for debelada onde tudo começou, nos Estados Unidos.

Governos do mundo inteiro tomaram medidas para se proteger. Onde o sistema bancário local participou da grande festança, o abalo é maior. Onde isso não se deu, como é o caso do Brasil, o impacto será indireto, em razão da contração dos mercados, do consumo e da queda de preços das commodities.

Obama é, portanto, o personagem central desse drama global porque dele se espera que venha o bálsamo para esse grande mal estar causado pela crise do século 21.

Mas não se pode contar com milagres. Antes de mais nada, o imbróglio é monumental. A rigor, o sistema bancário norte-americano encontra-se praticamente em bancarrota. Separar e isolar os ativos tóxicos – as malsinadas operações de financiamentos imobiliários podres – é tarefa complexa e ainda não de todo dominada e conhecida.

O quadro político é outra fonte de incertezas. Obama exortou e conclamou os republicanos a apoiá-lo nessa que, certamente, é a batalha do século. Ofereceu ministérios e abriu caminho ao entendimento, mas a estratégia não funcionou. A aprovação do pacote de US$ 800 bilhões para a recuperação da economia no Senado norte-americano se deu por margem mínima.

O novo presidente dos Estados Unidos precisar usar de engenho e arte para viabilizar medidas e políticas que abreviem a crise e minimizem seus efeitos sobre a população norte-americana, sobretudo suas camadas mais desprotegidas.

O Brasil, que nos anos 90 foi duramente atingido por crises externas, não escapará ileso da atual, a maior de todas e uma que poucos imaginavam pudesse acontecer. Mesmo que o sistema bancário brasileiro não tenha participado de operações no mercado das hipotecas subprime, estamos sendo atingidos. Nossas exportações estão sendo prejudicadas em volume e preço e falta crédito para as empresas.

Desemprego, redução do consumo e do ritmo da produção começam a ser observados na economia brasileira. Mas, felizmente, em virtude de um conjunto de mudanças que vão desde as reformas, passando pelo saneamento do sistema bancário brasileiro com o Proer, a renegociação das dívidas dos Estados, a adoção de regime de metas inflacionárias até a continuidade da política macroeconômica, o País ficou menos vulnerável. Conta com reservas substanciais e não precisa se financiar nos mercados externos.

A batalha que trava Obama é de vida ou morte, principalmente para milhões de norte-americanos que já foram atingidos pelo cataclismo ou que serão, caso suas políticas não sejam eficientes e eficazes.



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