Por Luis Aureliano

Muita gente, não só do governo, ainda não parece acreditar que o Brasil será atingido pela crise. As notícias de desemprego, férias coletivas e queda de consumo se multiplicam entre nós, mas para uma grande parte da população, especialmente os setores menos informados, tudo isso não configuraria crise nem significaria que podemos ser atingidos por ela.

Esse fato intriga, mas é possível vislumbrar algumas explicações. A primeira delas é que a “medida†de crise para parcelas significativas da população brasileira é gente morando debaixo de viaduto, aumento significativo de violência e criminalidade e ruas cheias de pedintes e ambulantes. Como não se chegou a esse ponto, daí essa visão de que a crise não nos atingirá.

Um segundo argumento tem a ver com os mecanismos de proteção social. Milhares de postos de trabalho foram fechados, mas graças ao seguro-desemprego os que perderam emprego ainda continuam com renda, menor, é verdade, mas suficiente para lhes garantir a sobrevivência e à sua família.

Finalmente, há uma terceira razão, que se soma a essas duas. É o presidente. Lula, em momento algum, admitiu a crise. Ao contrário, negou-a a princípio e, depois, fez questão de declarar que o Brasil ou não seria atingido ou seria o menos afetado pelas turbulências originadas com a débâcle do mercado das hipotecas subprime nos Estados Unidos.

Governos e governantes precisam ser cautelosos com o que falam. Devem, antes de tudo, falar a verdade. Negar fatos ou aspectos da realidade, sob a alegação de que apresentá-los sem retoques poderia disseminar o pânico e o medo, não funciona. E mais: o pressuposto é falso.

Os cidadãos de país livre e democrático têm direito à verdade e a democracia não sobrevive com embustes, falsidades ou meias verdades.

Mas à frente, quando a situação apertar, isto é, quando o desemprego aumentar, como explicar à população o que ocorre? E como pedir apoio para medidas de sacrifício se tudo era céu de brigadeiro até então?

Governantes precisam ser responsáveis, e democratas governando democracias precisam sê-lo em dobro. O cidadão não quer, não precisa e é avesso a tutelas políticas. Quer ter o direito a se informar sem rodeios e meias verdades.



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