Por Luis Aureliano

A crise de 29 pavimentou o caminho para o “Estado de Bem-Estarâ€, sobretudo nos Estados Unidos. Antes, principalmente neste país, vigorava o darwinismo social. Prevalecia a crença de que a pobreza era prova de falta de caráter ou de inferioridade – os pobres eram vistos como vítimas de sua própria indolência – e a natureza da vida econômica era considerada um análogo da luta das espécies pela sobrevivência.

Venciam os mais fortes, os mais aptos, e ao Estado nada competia fazer para mudar esse destino brutal. Quando quase um terço da força de trabalho foi jogada na rua amarga do desemprego, essa visão ideológica teve seus alicerces abalados.

Trabalhadores que antes eram tidos como exemplos de virtude foram vítimas de um processo econômico que não podiam influenciar. O laissez-faire que dominava a sociedade norte-americana foi substituído por um novo modelo de Estado, que reconhecia como missão garantir um mínimo de bem-estar a seus cidadãos.

Os Estados Unidos desde então tornaram-se um “Estado de Bem-Estarâ€, ainda que menos abrangente e compreensivo do que países da Europa como França, Alemanha, Inglaterra ou os escandinavos.

E agora, qual futuro será construído depois dessa grande crise que se espraiou para todo o mundo? Como serão as relações entre mercado e Estado? As mudanças se limitarão a maior controle e regulação ou atingirão outros campos? O “Estado de Bem-Estar†será ampliado ou sofrerá contrações?

Muitas leituras podem ser feitas da crise atual. Haverá, por certo, quem simplesmente a debite a falhas de regulação sobre o sistema financeiro ou falhas do mercado em sua capacidade de se auto-regular.

Mas há quem veja a crise dentro de contexto mais amplo. Há um mal-estar com o consumismo, a globalização sem controles e a depredação dos recursos naturais.

A quebradeira da indústria automobilística norte-americana, que é fenômeno de alcance maior, seria indício da ruína desse mundo fascinado pelo fetiche do consumo.

Uma nova ordem, por certo, nascerá dos escombros do capitalismo do século 21. A ironia da história não poderia ser maior. Quando tudo indicava sua superioridade, depois da débâcle socialista do fim do século, é o capitalismo quem tomba, de causas que são a ele congênitas.

O que será essa nova ordem é a grande incógnita. O grande incêndio da crise não se apagou. Chamas novas surgem a todo instante em diferentes economias.

Contê-las é a preocupação imediata de todos, mas é preciso abrir as portas para o futuro. Que as lições desse acontecimento histórico sejam aprendidas é a esperança de muitos.

A história é feita de avanços e retrocessos, mas ao fim e ao cabo a caminhada é sempre para a frente. Não se pode perder de vista que o fim último é o homem e a criação de condições para realizar suas potencialidades.



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